O Pe. Rui Alberto esteve com alguns padres da diocese de Braga a tentar ler o Evangelho da Alegria... na Quaresma.

 

Costumamos associar a Quaresma à cor roxa, ao pesar, ao jejum… não à alegria.
Na Quaresma confrontamo-nos com o lado negativo da nossa existência… e é natural que o lado festivo e alegre do evangelho fique algo na sombra.
Mas mesmo assim, vale a pena o esforço.
Uma experiência gozosa e feliz do Evangelho de Jesus só acontece quando superamos as nossas distracções e reencontramos o coração palpitante da fé. Aliás o Evangelho é isso mesmo porque nos permite dar esse salto de qualidade
Eu atrevo-me a fazer uma leitura contínua entre a Evangelii Gaudi e a Misericordiae Vultus. É importante superar uma leitura irénica do modelo eclesial e pastoral que o Papa propõe, em que a vida cristã se reduziria apenas às coisas fofinhas, atirando para debaixo do tapete o pathos, o exigente.

Um Deus pedagogo
Não se trata de conseguir um qualquer equilíbrio ou balanço entre “alegria” e “exigência”, entre agradável e difícil. Está na hora de reconhecer que o Evangelho da alegria não é esquizofrénico, não tem dissociação de personalidade. É unitário. Nada de catarismos. Mas o autor e protagonista deste evangelho sempre amou a pedagogia.
Pode coexistir uma ideia clara da meta onde se quer e deve chegar, ao mesmo tempo que reconhecemos que estamos ainda longe e que os pés estão cheios de bolhas.
E é aqui que nós entramos na nossa dupla condição de baptizados e ordenados. Que colocação pedagógica queremos ter? Neste caminho de já e ainda não, onde nos colocamos e como convidamos os outros a colocar-se? Esta colocação não consiste em saber se estamos longe ou perto da meta. Isso é pouco interessante e contraprodutivo. Consiste em saber como é que gerimos as nossas contradições. Em saber como lidamos com os desejos simultâneos de experimentar a alegria do evangelho e de amarmos outros ídolos.
Sentimo-nos como perfeitos, como o fariseu da parábola, que sinceramente acreditava ter chegado ao pico da sua experiência religiosa? Ou sentimo-nos irremediavelmente incapazes de viver segundo a proposta de Jesus? Claro que estes dois extremos são mais parecidos do que se pode imaginar.

Pecadores em conversão
Entre os santos em bicos de pés e os pecadores empedernidos há uma alternativa: aceitarmos que somos pecadores em conversão. Somos gente que se assume como em trânsito. Move-nos o desejo de uma beleza intensa a que Deus nos chama; ao mesmo tempo, arrastamos devagar o peso da nossa história, a nossa psicologia, a dificuldade em desejar e amar tão intensamente quanto o pede o Evangelho.
Esta contradição, esta tensão interna torna todos os cristãos fundamentalmente iguais. Independentemente dos ministérios, do capital religioso, cultural ou financeiro que cada um tem. Somos todos sempre e só, pecadores em conversão.
Esta consciência deve trazer-nos algumas atitudes.
A primeira é a fraternidade. Fala-se tanto de eclesiologia para aqui e para acolá. 50 anos depois do concílio descobrimos que há ainda demasiado clericalismo (de padres e de leigos). Apesar de tanta formação dos leigos, continuamos a assistir a muita gente que vive na Igreja, que forma a sua opinião, que age e que fala dentro da Igreja a partir de critérios mundanos apanhados num talk-show qualquer e não no Evangelho. Se e quando percebermos que somos basicamente todos uns pobres coitados que Deus convidou para a sua festa, deixaremos de nos bicar uns aos outros e será mais fácil partilhar muletas que nos permitam avançar.
A segunda atitude é o optimismo. Só gente muito cega ou inconsciente não vê como é frágil a nossa condição humana. As atitudes prometaicas são tolas e arrogantes. Mas quando nos damos conta que Deus se abaixa e nos puxa para cima, a coisa muda de figura.
A terceira atitude é a interrogação: como é que vou potenciar os recursos que Deus me/nos deu para fazer/mos caminho? +++
Neste contexto de Quaresma o Papa aponta em MV 17, 4 pistas importantes:
•    Uma leitura mais intensa e aberta da Palavra de Deus
•    Uma melhor circulação da bola entre o trio de ataque da quaresma: jejum, esmola e oração
•    As 24 horas para o Senhor
•    E, acima de tudo, o sacramento da reconciliação.

Um sacramento em crise

É sobre o sacramento do perdão que Francisco gasta mais atenção e preocupação. É corajosa a sua aposta.
Desde há décadas que se tornou um lugar comum falar da  crise deste sacramento. Seria mais uma manifestação de omnipresente e imparável secularização. Seria mais uma manifestação do desafecto das gentes face à moral da Igreja. Talvez… Na minha experiência de quem j+a cresceu num mundo secularizado, todas essas explicações me soam a passado. Acho mais interessantes (do ponto de vista científico) e preocupantes (no ponto de vista de quem se interessa pela edificação e melhoria do povo de Deus) as explicações que encontram dentro da própria Igreja as causas da crise.
Tenho por adquirido que houve um efectivo desinvestimento neste sacramento. Isso pode ver-se em alguns fenómenos:
•    Nos “catecismos” que temos
•    Na falta de divulgação do ritual da penitência
•    Nas dificuldades de transitar entre o tribunal humilhante, a terapia simpática e a experiência de ser curado por Aquele que nos ama e quer devolver à vida
•    Na falta de disponibilidade dos padres para confessar (se não é assim tão importante, para quê perder tempo?)
•    Na falta de qualidade da pastoral penitencial, na falta de empatia com as pessoas concretas
•    Na dificuldade que muitos padres têm em passar, na sua própria confissão, da questão da vergonha e da culpa à experiência de perdão
Claro que há boas experiências a acontecer.
•    Muitos de nós têm experiências poderosas com este sacramento, mesmo se numericamente reduzidas
•    Alguns momentos na vida da Igreja mostram muita gente, muitos jovens, que apreciam o sacramento.
•    Aqui e ali todos conhecemos comunidades que vão descobrindo o potencial renovador deste sacramento
Daqui surge a questão: que fazer para que neste ano jubilar (e daqui para a frente) a praxis da penitência possa melhorar?
Recuperando aquelas três atitudes que vimos antes (fraternidade, optimismo, interrogação) eu atrevo-me a sugerir, (a começar por mim próprio) que a renovação da minha própria prática como penitente me pode dar ideias. Se eu melhorar a qualidade da minha preparação, se estabilizar o ritmo da celebração, o que vai acontecer comigo? Se aquilo que me desagrada no confessor e no contexto, melhorar (em que sentido?), como é que isso me “beneficia”?
No meu agir pastoral, o que é que estas modificações pensadas para mim, podem trazer ao rebanho que me está confiado?

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